segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Cinema & Rock’n Roll - Uma Combinação da Pesada

Cinema & Rock ´n Roll - Uma Combinação da Pesada

Em 2004 chegou aos cinemas “Ray“, filme que mostrava a vida de uma das grandes lendas da música. Aproveitando o sucesso que ele fez pelos cinemas mundiais, resolvemos fazer uma “viagem” pelos filmes que possuem como tema central o bom e velho rock´n roll. Se você estranhou o fato de ter citado Ray Charles como um músico do rock´n roll, vamos fazer um breve resumo da história do rock para que possamos entender melhor esta citação: o rock foi originado exatamente da chamada “música de negros” (os coros das igrejas e o blues, durante a década de 40). No início dos anos 50, um certo homem branco de voz potente e um jeito diferente de movimentar o corpo causa uma verdadeira revolução no cenário musical, criando o chamado “rockabilly”; o nome dele: Elvis Presley.

Elvis se tornou um verdadeiro ícone da música, sendo considerado até hoje, o “Rei do Rock”. Com todo o seu charme e glamour, manteve uma carreira consistente também no cinema, tendo atuado em mais de 30 filmes, entre eles: “Ama-me Com Ternura” (56), “O Seresteiro de Acapulco” (63), “O Barco do Amor” (67), “O Bacana do Volante” (68) e “Lindas Encrencas, As Garotas” (69). Apesar de seus filmes não apresentarem o rock como o foco das histórias, na maioria delas, Elvis não deixava de lado o seu maior talento e interpretava papéis do cantor que buscava a fama, ao mesmo tempo em que se apaixonava pela mocinha.

Nos anos 50, começava a surgir o gosto pelo rock mais pesado e os solos de guitarra, principalmente com a ascensão de Chuck Berry e seu sucesso “Johnny Be Good”. Berry, por sua vez, também arriscou misturar a música e o cinema, atuando em filmes como “Go Johnny Go!” (59), que conta a história de Johnny Melody, um rapaz que cantava no coro da igreja até ser expulso de lá por gostar também de cantar rock ‘n roll, rotulada como “música do diabo.” Esse filme também prima por oferecer o único registro de Ritchie Valenz em filme, cantando “Ooh, My Baby“.

Durante a década de 60, o mundo foi tomado por um fenômeno chamado “The Beatles”. O quarteto formado por Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr mexeu com toda uma geração, que simplesmente “respirava” Beatles. Aclamados inclusive pelas gerações atuais, que não viveram o auge dos anos 60, “The Beatles” é, sem sombra de dúvidas, a banda mais marcante da história da música, e dificilmente perderá esse posto. Com todo esse prestígio, é óbvio que o grupo não deixaria sua participação no cinema passar em branco. O grupo atuou nos filmes: “A Hard Day´s Night” (64), dirigido por Richard Lester, que mostra um dia acompanhando os quatro rapazes; “Help” (65), dirigido pelo mesmo Richard Lester, que é uma ficção científica com um orçamento considerado alto para a época; “Yellow Submarine” (68), um excelente desenho animado com as dublagens feitas pelo grupo; e “Let it Be” (70), filme que mostra os bastidores do último show ao vivo do quarteto. A influência dos Beatles é tão grande, que surgiram depois diversas outras produções com referências ao conjunto, como “Os 5 Rapazes de Liverpool” (93), contando a história de um quinto integrante dos Beatles, que deixou a banda antes do lançamento do primeiro disco.

Voltando para Elvis Presley, ele fez “Lindas Encrencas, As Garotas” em 69. No filme, em 1927, o Chautauqua (um show itinerante) vai para Radford Center, Iowa, e junto com ele leva muitos problemas. Walter Hale (Elvis Presley), o empresário de terno branco, fica só na supervisão do espetáculo e decide recrutar pessoas do local, que se apresentam para participações pequenas em seus shows.

Help 1965 e Lindas Encrencas, As Garotas 1969

No ano de 1975, é lançada a primeira “ópera rock” do Cinema, com o filme “Tommy”, baseado na clássica música da banda “The Who”, com Roger Daltry, vocalista do conjunto, no papel título. O filme é um verdadeiro show cinematográfico (ao pé da letra mesmo), repleto de apresentações musicais marcantes, com destaque para a seqüência “Pinball Wizard”, em que o “The Who” toca em frente ao teatro e leva os fãs à loucura quando o guitarrista Pete Townshend começa a quebrar sua guitarra. O filme conta com as participações de grandes astros do cinema, como Oliver Reed, Jack Nicholson e Ann Margret, bem como com grandes astros da música, como Eric Clapton, Elton John e Tina Turner. Recebeu duas indicações ao OSCAR, nas seguintes categorias: Melhor Atriz (Ann-Magret) e Melhor Trilha Sonora. Um filme obrigatório para os amantes da união entre cinema e rock´n roll.

Grande parte das décadas de 60 e 70 foi marcada pelo estouro do rock progressivo, juntamente com o movimento hippie e a filosofia “sexo, drogas e rock´n roll”. Uma época bastante movimentada, que incluiu o festival de Woodstock, e atitudes espontâneas em protestos às guerras e conflitos sociais. Várias produções foram feitas, retratando as imagens desses badalados anos. Entre elas está o cultuado “Hair” (79), de Milos Forman, contando a história de um homem que, ao se alistar para lutar na guerra do Vietnã, conhece um grupo de hippies que o faz conscientizar-se dos absurdos de uma guerra, passando a viver dentro da filosofia “paz e amor”, embalado ao som de muita música.

Em 1980, é lançado “Os Irmãos Cara de Pau“, uma excelente comédia dirigida por John Landis, recheada de participações de grandes nomes do Rhythm & Blues (lembrando que o blues é a origem do rock), como James Brown, Ray Charles, Cab Calloway e Aretha Frankiln. A história é simples: dois irmãos (vividos por Dan Aykroyd e o falecido John Belushi) decidem reatar sua antiga banda de blues para arrecadar verbas e salvar da falência o orfanato em que foram criados, passando por inúmeras confusões. O charme desta comédia, juntamente com as apresentações musicais, fazem dela uma diversão muito acima da média. Teve uma continuação no ano de 2000, porém, bastante inferior ao original.

Hair 1979 e Os Irmãos Cara de Pau 1980

No ano de 1982, a famoso grupo “Pink Floyd”, segue o exemplo dado pelo “The Who” com “Tommy”, e lança o seu filme, “The Wall“, baseado na mais famosa música da banda, “Another Brick in the Wall”. O filme é um musical muito bem elaborado que mostra, ao som do “Pink Floyd”, a repressão feita aos alunos nas escolas, estes que não possuíam nenhuma liberdade de expressão. De um modo geral, a intenção era mostrar um retrato das escolas da sociedade durante os anos 60-70, mas, na verdade, foi um quadro baseado na infância de Roger Waters, baixista e vocalista do “Pink Floyd”.

Em 1991, o diretor Oliver Stone leva às telas a trajetória de uma das bandas mais famosas e polêmicas dos anos 60, com o filme “The Doors“. O filme mostra tudo que acontecia naqueles polêmicos anos: muita droga, sexo, etc. É preciso destacar a perfeita interpretação de Val Kilmer como o vocalista do “The Doors”, Jim Morrison. Kilmer dá um verdadeiro show de atuação, em que, simplesmente, “encarna” o verdadeiro Jim Morrison. Sem falar na assombrosa semelhança física entre os dois. Apesar de a obra ter sido criticado por Ray Manzareck, tecladista do “The Doors”, que afirma mostrar apenas o lado “louco” de Jim Morrison, o filme mostra a realidade vivida não só por Morrison, mas por diversas bandas famosas da época. Vale a pena ser conferido pela ótima interpretação de Val Kilmer e pelas músicas marcantes do “The Doors”, como “Light my fire” e “ Break on Through”

O rock sempre serviu de influência para o Cinema, muitas vezes, mesmo não tendo o assunto como tema principal, o rock é referência em várias produções, como a comédia saída de um quadro do programa Saturday Night Live, “Quanto Mais Idiota Melhor” (92), e a sua continuação, feita em 1993. A grande maioria das piadas do longa-metragem envolvem o rock, como no primeiro filme incluem ótimas gags envolvendo “Bohemian Rhapsody” do “Queen”, e “Stairway to Heaven”, do “Led Zepellin”. A obra também conta com a participação do cantor malucão Alice Cooper. Já o segundo filme, conta com a participação do grupo “Aerosmith”, e os personagens interpretados por Mike Myers e Dana Carvey organizam um grande evento de rock chamado “Waynestock”, uma referência clara ao Woodstock.

The Doors 1991 e Quanto Mais Idiota Melhor 1992

No ano de 1996, Tom Hanks faz a sua estréia no cinema como um cineasta, em “The Wonders - O Sonho Não Acabou“, contando a história da fictícia banda “The Wonders”, que passa pela experiência do “sucesso instantâneo” durante os anos 60. O filme é apenas correto e com aquela cara de sessão da tarde, mas a música “That thing you do”, tocada pelo fictício grupo, é daquelas que demoram um bom tempo para sair de nossas cabeças.

Em 2000, o diretor Cameron Crowe nos brinda com o espetacular “Quase Famosos“, com certeza, um dos melhores filmes sobre rock´n roll, e que melhor retrata o cenário dos anos 60-70. O roteiro é, na verdade, um reflexo da infância do próprio diretor Cameron Crown, que, aos 15 anos, quando escrevia matérias para a famosa revista Rolling Stone, acompanhou parte da turnê da banda “Led Zepellin”, e conheceu de perto tudo que ocorria por trás dos shows dos famosos grupos da época. Diversos fatos ocorridos são contados aqui e aplicados à fictícia banda “Stillwater”, que é, na verdade, uma mistura de três grupos que Crowe adorava: “Led Zeppelin”, “Allman Brothers” e “Lynyrd Skynyrd”. Por exemplo: a cena em que o guitarrista Russell Hammond, interpretado por Billy Crudup, após tomar LSD grita em cima de um telhado “Eu sou um deus dourado” foi protagonizada, na verdade, por Robert Plant, cantor do “Led Zeppelin”, no topo de um hotel de Los Angeles. Penny Lane, a “groupie” interpretada brilhantemente por Kate Hudson, realmente existiu e foi uma das primeiras paixões de Cameron Crowe em sua juventude. “Quase Famosos” é um filme delicioso de se assistir, e até mesmo quem não curte rock pode se apaixonar por ele.

The Wonders 1996 e Quase Famosos 2000

O filme “Rock Star” (2001), possui a mesma abordagem de “Quase Famosos“, porém, sem o glamour deste último. Nele, Mark Whalberg interpreta um vocalista de uma banda de garagem, cover da “Steel Dragon”, conjunto musical inventado para o longa. Certo dia ele recebe um convite para um teste em que substituiria o vocalista do próprio “Steel Dragon” e consegue entrar para a banda. No começo tudo parece um sonho, mas com o passar do tempo, ele começa a descobrir o lado escuro da fama. Apesar de não ser tão bom quanto “Quase Famosos”, o filme mostra uma boa imagem daqueles anos polêmicos, e a banda fictícia “Steel Dragon” é uma grata surpresa, com músicas muito bem elaboradas, recordistas de downloads na Internet, feitas por músicos de veradade. Vale a pena dar uma ouvida nas faixas “We All Die Young”, “Long Live Rock´n Roll”, “Reckless”, “Wasted Generation”, “Colorful” e “Stand Up and Shout”.

No ano de 2003, o ator (e também músico) Jack Black, estrela o divertido “Escola de Rock“, sob a direção de Richard Linklater. De um filme estrelado por crianças, geralmente não podemos esperar grandes coisas, por mais que “Escola de Rock” pareça uma sessão da tarde (onde com certeza estará daqui a alguns anos), o filme é uma verdadeira aula sobre rock. Na pele de um professor farçante, Jack Black dá um show ensinando para as crianças toda a arte do rock, enchendo-as de referências como “Deep Purple”, “Black Sabbath”, “AC/DC”, “The Doors”, “Led Zepellin” e diversas outras. Para quem não conhece muito o rock e pretende começar a curtir, assistir a “Escola de Rock”. É uma escolha mais do que acertada.

Rock Star 2001 e Escola de Rock 2003

O cinema brasileiro não poderia ficar de fora dessa viagem do rock pelo cinema, e, em 2004, lançou a cinebiografia de um de um dos maiores poetas do rock brasileiro, Cazuza, em “Cazuza - O Tempo Não Pára“, com o roteiro inspirado no livro “Só as Mães são Felizes”, escrito por Lucinha Araújo, mãe do cantor. No filme, é vista sua tragetória, desde a ascensão no grupo Barão Vermelho, sua carreira solo, até morrer de AIDS no ano de 1990. O filme não esconde nada da frenética vida do cantor, como sua bissexualidade, sua falta de responsabilidade com os ensaios, e o grande envolvimento com drogas e álcool. Destaque para a excelente atuação do ator Daniel de Oliveira, que copiou cada movimento de Cazuza, e consegue roubar toda a atenção do filme para si.

O mesmo acontece com “Ray” (2004), cinebiografia do cantor Ray Charles, que recebeu seis indicações ao OSCAR, levando em duas delas. O filme também não esconde certos fatos da vida do cantor, como o seu envolvimento com drogas, e sua obsessão por mulheres. A exemplo de “Cazuza”, o ator principal, Jamie Foxx, consegue capturar cada mínimo detalhe do artista, desde a habilidade para cantar e tocar piano, até cada trejeito e movimento do cantor, além de usar lentes especiais nos olhos durante 14 horas por dia. Elas o impediam de enxergar, tudo para dar mais realismo à sua interpretação. Por sua brilhante performance, Foxx merecidamente ganhou o Oscar na categoria Melhor Ator em 2005.

Cazuza 2004 e Ray 2004

Em 2005, podemos conferir “Be Cool – O Outro Nome do Jogo”, continuação do ótimo “O Nome do Jogo” (95), com John Travolta, Uma Thurman e uma série de astros no elenco, inclusive, grandes nomes da música como Steve Tyler, vocalista do “Aerosmith”, que interpreta ele mesmo; e Andre Benjamin, vocalista do “Outkast”. O que não falta a essa produção, são diversas referências ao mundo da música, já que esse é o tema central do filme.

Ainda em 2005, o diretor Gus Van Sant (de “Gênio Indomável”) dirigiu “Últimos Dias“, filme que mostra a eclosão do grunge pelo mundo, e também mostra os últimos dias de Kurt Cobain, vocalista do “Nirvana”, através de do personagem principal, um artista chamado Blake, interpretado por Michael Pitt (de “Os Sonhadores” e “Cálculo Mortal“). Outro projeto também está sendo encaminhado. Tratando-se da cinebiografia de Ian Curtis, fundador do “Joy Division”. Jude Law é um forte candidato para assumir o papel principal.

Be Cool 2005 e Últimos Dias 2005

Sem dúvidas, a influência do rock para o Cinema está bem longe do fim, e poderemos esperar ainda por muito som dentro das salas de exibição. Que o rock e o Cinema são eternos, isso todos devem saber, porém, parece que a união entre os dois parece também trilhar, cada vez mais, ao caminho da eternidade, e só o tempo irá nos mostrar os frutos de uma história de uniões entre todos os tipos de artes. Como diz nosso poeta do rock brasileiro, Cazuza: “o tempo não pára”.

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